Empresas exportadoras afetadas pelo tarifaço de Donald Trump enviaram propostas para o plano emergencial do governo, e se espera que a ajuda perdure, pelo menos, até boa parte do ano que vem. O Valor apurou que empresas consideram viável, no mínimo, seis meses de validade do pacote de contingência, renováveis por mais seis meses, além de linhas de financiamento que devem envolver o BNDES.
Ministérios que lideram o núcleo de negociação com os EUA não acenaram aos grupos expectativa de período de validade, mas empresas ouviram que podem ter medidas de curto, médio e longo prazos, de forma escalonada, para que se consiga ver a reação às ações. E duas fontes afirmaram que, apesar de as sugestões enviadas terem muito da espinha dorsal do plano da covid-19, na gestão de Jair Bolsonaro, o governo diz que não “bebe da fonte” daquele projeto.
“Eles não querem que se comparem ambos, e alegam que serão medidas diferentes em momentos diferentes, mas parte das nossas propostas veio desse pacote anterior simplesmente porque já foi testado e funcionou. Digamos que é um ‘menuzinho’ daquele da pandemia. E não tem qualquer fator político do nosso lado”, diz um dirigente da indústria a par da negociação.
Além disso, a fonte afirma que as 694 exceções anunciadas na quarta-feira (30) pelos EUA não devem mudar o desenho já formulado pelos ministérios da Fazenda e Desenvolvimento. “Essa foi a resposta que tivemos quando questionamos alguns interlocutores”, diz a fonte.
Foram montadas propostas no sentido de depender menos de recursos diretos do caixa da União, dado o cenário fiscal crítico, e ainda tentar separar empresas realmente em situação grave daquelas em melhores condições – apesar de as próprias indústrias admitirem se tratar de um critério que abre interpretações.
Segundo fontes consultadas pelo Valor um ponto central nessa discussão seria voltar a atenção para as empresas menores, com menos fôlego financeiro. Seria necessário ainda separar as empresas que suspenderão de imediato suas exportações daquelas que vão continuar vendendo aos Estados Unidos por não terem alternativas, mesmo com prejuízo.
Trata-se do caso, por exemplo, de vendas feitas entre operações de uma mesma empresa. Há companhias que produzem no Brasil com especificações para o consumo americano, e que não estão conseguindo redirecionar as suas mercadorias a outros mercados.
Entre os pontos enviados estão linhas para cobrir o Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), operação em que um banco adianta ao exportador os recursos da venda futura em moeda estrangeira. Agora, como uma medida de suporte, a ideia, dizem fontes, seria criar uma linha especial de empréstimo em dólar junto ao sistema financeiro oficial – isso incluiria BNDES – para financiar as vendas que não se concretizarem.
“Seria uma linha especial para aquelas que ficaram com produto parado, a taxas de mercado internacionais, e sem subsídio. Então deve ajudar quem produziu, até emitiu fatura, mas não entregou”, diz um líder do setor de têxteis. Uma fonte frisa que a proposta é que, além de não ter dinheiro da União, a linha deve incluir as despesas administrativas embutidas.
Outro caminho enviado aos ministérios do Desenvolvimento e da Fazenda trata do aumento do percentual mínimo estabelecido pelo Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras (Reintegra), passando de 0,1% para 3% para médias empresas, apurou o Valor. Essa medida seria válida para aquelas companhias que vão continuar vendendo ao mercado americano.
Segundo uma fonte, há pedidos de associações para validar essa possibilidade também para empresas de maior porte, e não apenas para as médias. Não há informação se essa sugestão avançou no Planalto.
Com isso, se reproduziria a alíquota já em trâmite, como publicado no Diário Oficial na terça-feira (29), de 3% aos microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte.
Outro tema encaminhando tem relação com aceleração da restituição do ICMS acumulado de empresas exportadoras – uma demanda antiga e que volta à lista de pedidos de indústrias de carnes, madeiras, têxteis e frutas, por exemplo, dizem fontes.
Associações preparam uma carta que será enviada aos Estados brasileiros com apoio de indústrias exportadoras aos EUA, abordando o tema do crédito de ICMS.
O Governo de São Paulo já anunciou a liberação desses valores acumulados para mitigar os efeitos das tarifas às empresas, no valor de R$ 1 bilhão.
Comum à maioria das entidades da indústria ouvidas está o tema da redução da jornada dos trabalhadores, com proporcional diminuição de salários, que teriam subsídio do governo. O Valor apurou que a medida não agrada à Fazenda pelo gasto embutido. Trata-se da mesma cartilha aplicada no período da covid-19, em que empresas pagavam parte dos salários, e governo entrava com o restante para completar os 100%.
Uma das possibilidades ainda seria definir quatro dias de trabalho por semana, com um dia que se transformaria em banco de horas, de forma a reduzir a produção. As medidas de ordem trabalhistas teriam partido da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
“É ruim que se chegue nisso, mas é por um período curto e limitado a um conjunto de setores. Achamos que será menor do que na época da covid, porque se trataria efetivamente de questão emergencial”, diz uma executiva que esteve em reunião com o Ministério do Desenvolvimento em julho.
Até esta quinta-feira (31), representantes dos setores de café, carnes, madeira, têxteis e calçados já haviam abordado o governo com sugestões – solicitadas nas reuniões entre os ministérios e os líderes de indústrias. Mas o contato poderia ser aberto por parte de qualquer segmento afetado pelo tarifaço de 50%.
Café, frutas, carnes e toda a parte de produtos industriais vão estar dentro da tarifa adicional de 40%, mais os 10% já válidos.
Ontem, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, disse que o governo tem um plano de ação “praticamente pronto”, mas que está sob análise porque apenas na quarta-feira foram apresentados detalhes do tarifaço. Alckmin afirmou que o presidente Lula ainda vai bater o martelo, e que o plano terá algum impacto de natureza financeira, creditícia e tributária.
Apesar do menor número de segmentos afetados pela sobretaxa de 50 % – cerca de 700 produtos ficaram de fora, mantendo o imposto de 10% – há mercados com forte peso econômico e político em Brasília, como o agropecuário, no grupo daqueles atingidos, e estes foram ouvidos pela reportagem nos últimos dias.
Esses setores representam 36% das exportações brasileiras aos EUA, em valor, informou o MDIC, após atualização dos dados depois de divulgada a lista das exceções.
A questão central é que há pouco espaço para destinar esses produtos para rotas alternativas no mercado externo no curto prazo – isso exigiria capacidade de armazenamento maior de clientes no exterior, e ainda derrubaria as tabelas do mercado. Seria o caso de carnes, pescados e frutas, que já sentiram o impacto, inclusive.
Antes do suco de laranja entrar na lista de exceções ao tarifaço, clientes tradicionais europeus do produto tentaram renegociar contratos com as indústrias exportadoras do Brasil, oferecendo US$ 1 mil por tonelada de suco, sendo que a cotação média de janeiro a junho ficou em R$ 2,6 mil.
Somado a isso, redirecionar para mercado interno também pode derrubar preços, o faturamento e logo, as margens. Além dos perecíveis, isso pode acontece com setores têxteis, calçados e móveis.
O mobiliário vendido aos EUA pelo Brasil, por exemplo, é produzido especificamente (em termos de design e dimensões) para clientes daquele país, segundo a Abimóvel. É nesse ambiente que os setores vem aguardando que o governo acelere o desenho final do plano.
Procurado, o Ministério da Fazenda não comentou. “Desde o anúncio pelo governo norte-americano da imposição de tarifas sobre as exportações brasileiras, o governo federal tem se reunido com representantes de todos os setores produtivos, recolhendo diagnósticos e propostas. O governo está aprofundando o diálogo para definir as medidas de proteção aos empregos e de auxílio às empresas. O MDIC definirá uma agenda de reuniões com os setores mais atingidos”, respondeu por meio de sua assessoria a pasta comandada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. Já a Secretaria de Comunicação Social da Presidência não respondeu até o fechamento desta edição.
Fonte: Valor Econômico
Empresas exportadoras afetadas pelo tarifaço de Donald Trump enviaram propostas para o plano emergencial do governo, e se espera que a ajuda perdure, pelo menos, até boa parte do ano que vem. O Valor apurou que empresas consideram viável, no mínimo, seis meses de validade do pacote de contingência, renováveis por mais seis meses, além de linhas de financiamento que devem envolver o BNDES.
Ministérios que lideram o núcleo de negociação com os EUA não acenaram aos grupos expectativa de período de validade, mas empresas ouviram que podem ter medidas de curto, médio e longo prazos, de forma escalonada, para que se consiga ver a reação às ações. E duas fontes afirmaram que, apesar de as sugestões enviadas terem muito da espinha dorsal do plano da covid-19, na gestão de Jair Bolsonaro, o governo diz que não “bebe da fonte” daquele projeto.
“Eles não querem que se comparem ambos, e alegam que serão medidas diferentes em momentos diferentes, mas parte das nossas propostas veio desse pacote anterior simplesmente porque já foi testado e funcionou. Digamos que é um ‘menuzinho’ daquele da pandemia. E não tem qualquer fator político do nosso lado”, diz um dirigente da indústria a par da negociação.
Além disso, a fonte afirma que as 694 exceções anunciadas na quarta-feira (30) pelos EUA não devem mudar o desenho já formulado pelos ministérios da Fazenda e Desenvolvimento. “Essa foi a resposta que tivemos quando questionamos alguns interlocutores”, diz a fonte.
Foram montadas propostas no sentido de depender menos de recursos diretos do caixa da União, dado o cenário fiscal crítico, e ainda tentar separar empresas realmente em situação grave daquelas em melhores condições – apesar de as próprias indústrias admitirem se tratar de um critério que abre interpretações.
Segundo fontes consultadas pelo Valor um ponto central nessa discussão seria voltar a atenção para as empresas menores, com menos fôlego financeiro. Seria necessário ainda separar as empresas que suspenderão de imediato suas exportações daquelas que vão continuar vendendo aos Estados Unidos por não terem alternativas, mesmo com prejuízo.
Trata-se do caso, por exemplo, de vendas feitas entre operações de uma mesma empresa. Há companhias que produzem no Brasil com especificações para o consumo americano, e que não estão conseguindo redirecionar as suas mercadorias a outros mercados.
Entre os pontos enviados estão linhas para cobrir o Adiantamento sobre Contrato de Câmbio (ACC), operação em que um banco adianta ao exportador os recursos da venda futura em moeda estrangeira. Agora, como uma medida de suporte, a ideia, dizem fontes, seria criar uma linha especial de empréstimo em dólar junto ao sistema financeiro oficial – isso incluiria BNDES – para financiar as vendas que não se concretizarem.
“Seria uma linha especial para aquelas que ficaram com produto parado, a taxas de mercado internacionais, e sem subsídio. Então deve ajudar quem produziu, até emitiu fatura, mas não entregou”, diz um líder do setor de têxteis. Uma fonte frisa que a proposta é que, além de não ter dinheiro da União, a linha deve incluir as despesas administrativas embutidas.
Outro caminho enviado aos ministérios do Desenvolvimento e da Fazenda trata do aumento do percentual mínimo estabelecido pelo Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras (Reintegra), passando de 0,1% para 3% para médias empresas, apurou o Valor. Essa medida seria válida para aquelas companhias que vão continuar vendendo ao mercado americano.
Segundo uma fonte, há pedidos de associações para validar essa possibilidade também para empresas de maior porte, e não apenas para as médias. Não há informação se essa sugestão avançou no Planalto.
Com isso, se reproduziria a alíquota já em trâmite, como publicado no Diário Oficial na terça-feira (29), de 3% aos microempreendedores individuais, microempresas e empresas de pequeno porte.
Outro tema encaminhando tem relação com aceleração da restituição do ICMS acumulado de empresas exportadoras – uma demanda antiga e que volta à lista de pedidos de indústrias de carnes, madeiras, têxteis e frutas, por exemplo, dizem fontes.
Associações preparam uma carta que será enviada aos Estados brasileiros com apoio de indústrias exportadoras aos EUA, abordando o tema do crédito de ICMS.
O Governo de São Paulo já anunciou a liberação desses valores acumulados para mitigar os efeitos das tarifas às empresas, no valor de R$ 1 bilhão.
Comum à maioria das entidades da indústria ouvidas está o tema da redução da jornada dos trabalhadores, com proporcional diminuição de salários, que teriam subsídio do governo. O Valor apurou que a medida não agrada à Fazenda pelo gasto embutido. Trata-se da mesma cartilha aplicada no período da covid-19, em que empresas pagavam parte dos salários, e governo entrava com o restante para completar os 100%.
Uma das possibilidades ainda seria definir quatro dias de trabalho por semana, com um dia que se transformaria em banco de horas, de forma a reduzir a produção. As medidas de ordem trabalhistas teriam partido da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
“É ruim que se chegue nisso, mas é por um período curto e limitado a um conjunto de setores. Achamos que será menor do que na época da covid, porque se trataria efetivamente de questão emergencial”, diz uma executiva que esteve em reunião com o Ministério do Desenvolvimento em julho.
Até esta quinta-feira (31), representantes dos setores de café, carnes, madeira, têxteis e calçados já haviam abordado o governo com sugestões – solicitadas nas reuniões entre os ministérios e os líderes de indústrias. Mas o contato poderia ser aberto por parte de qualquer segmento afetado pelo tarifaço de 50%.
Café, frutas, carnes e toda a parte de produtos industriais vão estar dentro da tarifa adicional de 40%, mais os 10% já válidos.
Ontem, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, disse que o governo tem um plano de ação “praticamente pronto”, mas que está sob análise porque apenas na quarta-feira foram apresentados detalhes do tarifaço. Alckmin afirmou que o presidente Lula ainda vai bater o martelo, e que o plano terá algum impacto de natureza financeira, creditícia e tributária.
Apesar do menor número de segmentos afetados pela sobretaxa de 50 % – cerca de 700 produtos ficaram de fora, mantendo o imposto de 10% – há mercados com forte peso econômico e político em Brasília, como o agropecuário, no grupo daqueles atingidos, e estes foram ouvidos pela reportagem nos últimos dias.
Esses setores representam 36% das exportações brasileiras aos EUA, em valor, informou o MDIC, após atualização dos dados depois de divulgada a lista das exceções.
A questão central é que há pouco espaço para destinar esses produtos para rotas alternativas no mercado externo no curto prazo – isso exigiria capacidade de armazenamento maior de clientes no exterior, e ainda derrubaria as tabelas do mercado. Seria o caso de carnes, pescados e frutas, que já sentiram o impacto, inclusive.
Antes do suco de laranja entrar na lista de exceções ao tarifaço, clientes tradicionais europeus do produto tentaram renegociar contratos com as indústrias exportadoras do Brasil, oferecendo US$ 1 mil por tonelada de suco, sendo que a cotação média de janeiro a junho ficou em R$ 2,6 mil.
Somado a isso, redirecionar para mercado interno também pode derrubar preços, o faturamento e logo, as margens. Além dos perecíveis, isso pode acontece com setores têxteis, calçados e móveis.
O mobiliário vendido aos EUA pelo Brasil, por exemplo, é produzido especificamente (em termos de design e dimensões) para clientes daquele país, segundo a Abimóvel. É nesse ambiente que os setores vem aguardando que o governo acelere o desenho final do plano.
Procurado, o Ministério da Fazenda não comentou. “Desde o anúncio pelo governo norte-americano da imposição de tarifas sobre as exportações brasileiras, o governo federal tem se reunido com representantes de todos os setores produtivos, recolhendo diagnósticos e propostas. O governo está aprofundando o diálogo para definir as medidas de proteção aos empregos e de auxílio às empresas. O MDIC definirá uma agenda de reuniões com os setores mais atingidos”, respondeu por meio de sua assessoria a pasta comandada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. Já a Secretaria de Comunicação Social da Presidência não respondeu até o fechamento desta edição.
Fonte: Valor Econômico