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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta quarta-feira (2) que vai impor uma tarifa de 10% sobre produtos comprados de outros países, inclusive do Brasil. Em cerimônia na Casa Branca, o republicano disse que o objetivo é trazer empregos e fábricas de volta ao país.

Trump também determinou a cobrança de tarifas adicionais a um grupo de países que, segundo ele, têm sido injustos com os EUA no comércio internacional. O gesto tende a aprofundar a guerra comercial liderada pelo republicano, uma vez que a lista inclui China (taxa de 34%), União Europeia (20%) e Japão (24%).

“Estamos sendo muito gentis, somos pessoas muito gentis. Nós vamos cobrar aproximadamente metade daquilo que eles nos cobram. As tarifas não serão completamente recíprocas”, afirmou o republicano.

Em conversas oficiais antes do anúncio, o Brasil foi citado por integrantes do governo americano como um país que exige licenças para importar produtos agrícolas, em um exemplo dos tipos de barreiras não tarifárias que incomodam a gestão Trump.

Apesar da citação, um funcionário da Casa Branca afirmou à Folha que o país não foi considerado uma das nações que mais prejudicam os EUA e, por isso, não recebeu uma tarifa maior, pelo menos por ora.

Como a Folha antecipou na semana passada, o Brasil e outros países atingidos pela medida foram alvo de taxas lineares, com poucas exceções. A tarifa de 10% entrará em vigor já neste neste sábado (5). As adicionais, quatro dias depois.

Trump se refere ao anúncio desta quarta como o Dia da Libertação.

Um integrante do governo americano afirmou que as tarifas foram personalizadas para cada país, com números calculados usando metodologias bem estabelecidas.

A nova tarifa de 34% sobre a China deve ser somada às taxas anteriores anunciadas pela Casa Branca, como os 20% impostos por Trump como represália pelo comércio da droga fentanil. Com isso, a tarifa básica sobre as importações chinesas seria de 54% após 9 de abril, de acordo com o jornal The Wall Street Journal.

Trump já havia imposto tarifas de 25% sobre aço e alumínio vindos de todos os países. Segundo um funcionário da Casa Branca, a tarifa de 10% para o Brasil não será cumulativa nesse caso —portanto, ela permanece em 25% para esses produtos.

Outros itens foram isentos: cobre, medicamentos, semicondutores, barras de ouro, energia e outros minerais que não estão disponíveis nos EUA. Os automóveis também não entram nessa lista, por já serem alvo de uma taxa específica de 25% que entrou em vigor nesta quarta.

Também foram excetuados artigos que se enquadram numa lei americana sobre emergência nacional e produtos que venham a ser sobretaxados com base numa lei sobre segurança nacional.

Para os demais produtos que já recebem uma tarifa específica para entrar os EUA e não estão incluídos na lista de isenções do decreto, o imposto de 10% anunciado nesta quarta será cumulativo.

Um exemplo é o caso do etanol, de acordo com interlocutores. Hoje, os americanos impõem uma tarifa de 2,5% ao produto, que subiria para 12,5% com o novo imposto.

Há ainda no decreto de Trump um dispositivo que permite ao republicano aumentar as tarifas recém-anunciadas caso os sócios comerciais retaliem os EUA, de acordo com um comunicado que explica as novas medidas.

O republicano adiou a tarifa de 25% sobre a maioria dos produtos vindos de Canadá e México para pressioná-los a reforçar o combate ao tráfico de drogas e à imigração ilegal, embora essa medida deva expirar nesta quarta.

O governo brasileiro estava pessimista antes do anúncio e com poucos detalhes sobre como o Brasil seria atingido. Preparando-se para o que viria, a Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (2) um PL (projeto de lei) que autoriza o governo a retaliar comercialmente países que imponham barreiras discriminatórias contra produtos brasileiros, unindo a base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à bancada ruralista. O texto já havia passado pelo Senado.

Como justificativa o tarifaço desta quarta, Trump afirma que as demais nações exploram os Estados Unidos com tarifas elevadas de importação. Argumenta que a elevação de uma muralha tarifária pelos EUA é uma maneira de atrair fábricas para o país, numa tentativa de reindustrializá-lo em setores-chave.

“2 de abril de 2025 será para sempre lembrado como o dia que a indústria americana renasceu, que o destino da América foi recuperado e o dia que começamos a tornar a América rica novamente”, disse ele.

A imposição das tarifas ocorre apesar do alerta de integrantes do mercado e do próprio governo Trump de que o ato pode gerar inflação nos EUA, além de prejudicar a relação com as demais nações.

Analistas do Deutsche Bank Research afirmaram nesta quarta que outros impostos a produtos estrangeiros anunciados por Trump anteriormente elevaram a tarifa média nos EUA para 12%. Em nota, eles dizem que este seria o nível mais elevado desde a Segunda Guerra Mundial.

O documento ainda afirma que as novas barreiras anunciadas nesta quarta por Trump podem ampliar a tarifa média aplicada pelos EUA a 18%, se aproximando de um nível registrado no país no início dos anos 1930, no período pós-aprovação Lei Tarifária Smoot-Hawley, o que contribuiu para a Grande Depressão.

O problema alertado por economistas é que a tendência é de as empresas repassarem os custos extras aos consumidores, impulsionando a inflação nos EUA.

Fonte: Folha de São Paulo